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Núpcias

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Uma inquietação de pólen suspende o voo da abelha. Capturo-a com os dedos da alma, e ouço-a zumbir na minha cabeça, num limiar de memórias que fazem parte de um verão carregado de amêndoas e alfarroba. Veio depois o zangão com o seu canto áspero; e entreguei-lhe esse corpo deitado na minha mão, queimado pelo sol do meio-dia. Assim, entre os declives da terra e os corais do olhar, esqueci um presságio de azul.
Ter-me-iam confundido com um antigo profeta, desses que pedem a esmola de uma certeza em cada canto da vida; ou pedir-me-iam o nome de cada um deles para completar os livros de frases inaudíveis como as vozes apagadas pelo vento, como esse murmúrio nascido num eco de travesseiro, como o desejo gritado no instante do naufrágio: e em vão lhes confessei ter perdido todos os sonhos, e nada ter para lhes dar.
Por vezes, digo, este pólen branco que sobra nas corolas secas do inverno serve de alimento aos famintos de amor: e vejo-os partirem pelos campos, em busca de imagens, deixando …

Casida de la rosa

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A rosa não buscava a aurora: quase eterna no ramo buscava outra coisa.
A rosa não buscava ciência nem sombra: confim de carne e sonho, buscava outra coisa.
A rosa não buscava a rosa: imóvel pelo céu buscava outra coisa.

Federico Garcia Lorca


Mar

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Este mar que me acalma e me faz feliz.


Mar Sonoro
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim. A tua beleza aumenta quando estamos sós E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho. Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim.
Sofia de Mello Breyner Anderson

Overload

Tento fazer tudo.
Quero fazer tudo.
Chateio-me quando não faço tudo.
Então vou fazer.
Tenho a mania.
E depois sinto-me doente como nunca me senti na vida.
Vá-se lá saber porquê...

Há poços sem fundo?

Hoje diria que sim.

Dos tiques e das franjas

Agora que sou mãe de um rapaz, espero ansiosamente que passe em tempo útil a moda em que os putos adolescentes e pré-adolescentes usam uma franja sobre os olhos, que os faz literalmente atirar a cabeça para o lado num tique premeditado, que me dá ganas de pegar na máquina e fazer por aí umas tosquias. Que cena tão parva!

Acordai!

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


Fernando Lopes Graça José Gomes Ferreira
Ouvir (Lisboa Cantat)