Sábado, 21 de Abril de 2012

Os fumadores das nove em ponto


São nove horas. À frente de uma das torres de escritórios, lá se amontoam eles. Olheiras profundas, rugas vincadas entre o nariz e o queixo, arcos perfeitos que sulcam a fronte, quase todos magros, quase todos de pele cinzenta e macilenta. Dia, após dia, após dia, a mesma rotina que toca de algum modo o ritual. É para muitos o primeiro cigarro da manhã, geralmente solitário, esporadicamente acompanhado por dois dedos de conversa. Segue-se em regra ao parco pequeno-almoço no quiosque ali perto – uma bica e um bolo – e antecede duas horas de trabalho, intenso mas desorganizado. São cinco minutos de ensimesmamento, a pensar na vida, no dia que se segue, no que não foi feito na véspera. Quem por lá passar atrasado, verá apenas um cinzeiro cheio, algumas beatas no chão e sentirá um leve cheiro a tabaco queimado. É o rasto dos fumadores das nove em ponto, que já se apinharam no elevador e desapareceram até ao próximo cigarro.

Sábado, 3 de Março de 2012

O mistério da aparente imutabilidade

Há pessoas que parecem não mudar. Ontem, enquanto esperava pelo meu na paragem, olhei para dentro de um outro autocarro e quem vejo? Um rapaz dos tempos da faculdade. Um rapaz que todos os dias apanhava o mesmo autocarro que eu e que se sentava invariavelmente no mesmo lugar. Um rapaz que, apesar de morar na mesma cidade, andar na mesma universidade, ter aulas muitas vezes na sala contígua à minha e apanhar o mesmo autocarro no mesmo horário, nunca me dirigiu a palavra. Nem em resposta ao meu olá. Ali ia ele, sem ouvir música, sem ler um livro, um jornal, uma revista, sem falar com ninguém. Sempre vestido com as mesmas cores - verde, bege, castanho - sempre com óculos do mesmo formato, sempre com a mochila ao colo, sempre com a mesma expressão de lábios cerrados com um leve sorriso sarcástico no canto da boca, quase imperceptível. Cara redonda, cabelo encaracolado e sempre bem cortado, expressão impenetrável. Tudo igual, durante cinco anos. E, quase doze anos depois, ali estava ele. No mesmo autocarro de sempre. No mesmo lugar de sempre. Mais uns quilos, a mesma quantidade de cabelo, os mesmos tons de verde, bege e castanho. Óculos iguais. Mochila ao colo, lábios cerrados e pequeno sorriso sarcástico ao canto da boca. Nunca soube nem saberei o seu nome. Nunca soube nada de nada sobre a sua vida. Creio que nunca saberei. Mas a imutabilidade aparente é algo que me intriga...

Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Por um feliz dois mil e doze


Pode não haver grandes razões para pensar que dois mil e doze será um bom ano. Será mau, dizem-nos, será difícil, alertam. Sabemos que será, sentimo-lo diariamente. Pedem a muitos o impossível. Mas, acima de tudo, tentam destruir-nos a esperança porque se não tivermos esperança, não temos expectativas e quando não temos expectativas, a migalha que nos derem parecerá um banquete e se nos derem várias migalhas, os nossos estômagos diminuidos ficarão saciados e, como a memória é curta, tudo esqueceremos.

O que eu tenho a dizer em relação a essa ideia é o seguinte: por mais que nos digam que vai ser pior do que foi até agora, por mais que nos tirem a esperança, não podemos perdê-la. Jamais. Porque se perdermos a esperança, se perdermos a chama interior que nos motiva, que nos faz lutar na adversidade e contra ela, perdemos o que nos resta do nosso instinto. Somos seres racionais e a nossa maior força é a nossa inteligência. Como nos deixámos então ficar amorfos? Como deixámos nós de pensar por nós e passámos apenas a seguir a cabeça de outros? Temos cabeça para pensar, para questionar e sim, admirem-se, para gerar a mudança, mesmo que seja apenas uma pequena mudança. Temos que conjugar o instinto que nos leva a acreditar que tudo poderá ficar melhor com a inteligência e a racionalidade que nos permite tomar a mudança nas nossas mãos.

Dificilmente teremos uma solução para mudar as coisas no imediato. Podemos e devemos manifestar-nos, se assim o entendermos, podemos e devemos tentar participar nas iniciativas que vão surgindo para mudar alguma coisa, podemos e devermos sair de nós, da nossa pequena esfera de conforto, e juntar-nos a outros que connosco partilhem ideias ou ideais e tentar melhorar este mundo e esta sociedade podre. Não teremos resultados hoje, desenganemo-nos, mas temos que deixar de pensar apenas no hoje. Amanhã é dia. Para o ano é ano. O futuro é o futuro, para nós e para os nossos filhos e para os netos que virão um dia, e faz tão pouco sentido deixarmos o nosso futuro na mão de menos de um por cento de nós como o faz deixarmos nesses mesmos um por cento a riqueza que geramos, que produzimos com o nosso esforço, com o nosso árduo trabalho. Talvez possamos estar um pouco melhor que o vizinho do lado e, por isso, haver a tentação de pensar deixa-me estar quieto no meu canto, a fazer a minha vida, pode ser que não reparem em mim e que não me tirem o pouco que tenho. É legítimo, mas isso não pode impedir-nos de pensar - pelo menos de pensar - que se eu der a mão ao meu vizinho e se juntos nos levantarmos e tentarmos fazer algo, nem que seja pelo menos começarmos a falar um com o outro, partilharmos as nossas ideias e os nossos problemas, já estaremos a mudar algo. Seremos mais humanos e se nos aproximarmos da nossa humanidade, estaremos mais próximos de nós mesmos e, consequentemente, do controlo dos nossos destinos.  

Não está na minha natureza ser negativa. Não está na minha natureza baixar os braços. Gostava de poder fazer mais do que faço, mas sei que o pouco que faço é melhor que nada. Por isso, acredito que será um feliz dois mil e doze. Tenham esperança. Não deixem que tirem essa esperança de vós porque é quanto basta para nos dar força para fazermos com que o dia de amanhã seja um dia melhor.

Sábado, 13 de Agosto de 2011

Son(h)o. Ou a sua ausência.

Longa vai a noite e persistente a insónia. Esta amiga não me visitava há já algum tempo. É insónia de exaustão. 

Nas últimas noites o descanso tem-me escapado pelos dedos. Tenho sonhado como não me acontecia há mais de um ano. Quando sonho muito, demasiado, é sinal de que as minhas forças estão no fim.

Tenho tido pesadelos, daqueles que me fazem acordar aos gritos. Desses não me lembro, só sei porque me contam que os tive. Não me lembro de gritar. Não me lembro de os ter sonhado. 

Tenho tido sonhos bizarros, onde uma série de pessoas me fazem confidências sobre coisas que preferia não saber, onde choram no meu ombro, onde me seguem, onde me perseguem. Pessoas que conheço. Pessoas que não conheço. Pessoas próximas mas que estão, de algum modo, diferentes. Fisicamente. Intelectualmente. Desses vou-me lembrando, uns melhor, outros pior.

Noutros, sonho sempre com a mesma pessoa. O contexto muda, mas a pessoa é a mesma dia, após dia, após dia. Como se de algum modo estivesse a compensar a sua ausência. E esses deixam-me a pensar.

Adormeço e o meu mundo fica às avessas.

Hoje não me chega o sono. Nem os sonhos. Causa ou consequência?     

Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

O que faz a (minha) vida

Um dos princípios por que tento guiar-me é o equilíbrio. É com algum esforço que tento conciliar tudo: fazer bem o meu trabalho, ser uma mãe presente, 'regar o pezinho' de uma relação que já vai em quase onze felizes anos, ter tempo para os amigos, ter tempo para mim, fazer as coisas que gosto... enfim, tirar prazer e o melhor que a vida tem para oferecer e aproveitar ao máximo as oportunidades que ela vai dando, mas sem exageros para não afectar esse equilíbrio que consegui a tanto custo.

Descobri no último ano de faculdade (ainda no século passado...) que sou mais feliz e mais realizada quando consigo fazer um pouco de tudo. Nesse ano, acabei o curso, fui jornalista, fui actriz, namorei q.b. e, com tantas actividades, descobri que é nessa diversidade que está o meu caminho. No entanto, quando comecei a trabalhar a tempo inteiro e decidi ao mesmo tempo fazer um mestrado, achei que não podia ter tempo para o resto. Impus que não poderia ter tempo para o resto, para ser mais precisa. Perdi o equilibrio, demasiado absorvida por um trabalho exigente, por um tema de tese demasiado ambicioso e por uma obsessão exagerada por essas duas áreas da minha vida. Tive a sorte de o André ser a pessoa que é. Se fosse outro, acho que me tinha mandado dar uma curva, porque eu fiquei meio doida. Mesmo. Afastei-me dos meus amigos, afastei-me de tudo, não me permitia nenhum momento de lazer e quando o fazia crescia em mim um sentimento de culpa enorme. Deixei de dormir, perdi peso e, desconfio, perdi uns anos de vida. Mas, apesar de tudo, defendi a tese, terminei o Mestrado e estabilizei a minha vida no emprego. Quando passei a ter tempo livre, estava tão exausta que não me apetecia fazer nada para além de vegetar no sofá. E assim passei mais um ano, a vegetar, sem uma actividade para além do trabalho, sem querer sair, sem querer nada de nada. No fundo, passei do oito ao oitenta. Foram momentos difíceis. Muito difíceis.

Mas nada como uma grande mudança para pôr a vida em perspectiva. Quando fui mãe, tudo se voltou a compor na minha cabeça. Parece que saí de uma longa amnésia e que, finalmente, cheguei à conclusão que já havia alcançado seis anos antes: para ser feliz terei que conseguir encaixar no meu tempo tudo aquilo que gosto de fazer. Tinha vinte e oito anos nessa altura. Sorte a minha, poderia ter saído da amnésia aos oitenta anos... 

A partir daí comecei, muito pela necessidade de conciliação que um filho implica, a gerir melhor o meu tempo. Passei a ser mais eficiente no trabalho, a pensar na maneira melhor e mais rápida de fazer as coisas, a optimizar tarefas, a descomplicar. Passei a ter um horário mais fixo de saída e não foi o fim do mundo. O trabalho sempre apareceu feito, com maior qualidade que anteriormente - no periodo obsessivo -, e eu passei a sentir-me mais realizada. Consegui quebrar o ciclo vicioso em que tinha entrado uns anos antes. Com o passar do tempo, comecei a redescobrir-me. Voltei ao ginásio, que antes da "grande obsessão" frequentava religiosamente, voltei a ter vontade de sair, comecei a interessar-me mais e mais por desenvolver aptidões novas, a criar, a ler compulsivamente. Mais tarde, voltei a escrever como fazia antes, voltei à minha paixão de sempre. E, mais do que isso, reaproximei-me dos meus amigos, em particular da minha melhor amiga que, apesar da minha fase difícil nunca desistiu de mim (obrigado! obrigado!). Procurei recompensar o André pela sua infinita paciência. No fundo, deixei de perder tempo com o pensamento recorrente de que tinha que mudar (é assustador rever as poucas coisas que escrevi nesses anos, quase todas nesse sentido) e mudei realmente. 

É por isso que os meus dias me dão uma satisfação tremenda, mesmo que impliquem uma enorme disciplina para fazer tudo aquilo a que me proponho. É que não há nada como acordar a Cat com uma brincadeira, rir com ela de manhã, ser eu a deixá-la na escola e não delegar essa tarefa a ninguém, ir encostada ao meu grande amor no autocarro (mesmo que ele vá a dormir e eu a ler), começar o dia a analisar o que se passa no mundo, a aplicar aquilo para que tanto estudei, a trocar ideias com as minhas colegas - com quem formo uma equipa de que me orgulho muito -, a trabalhar com prazer, a escutar e a ser ouvida. E gosto de poder aproveitar a hora de almoço para estar com algum amigo ou amiga, para ir ao ginásio ou para ir tirar fotografias e dar um passeio, porque depois volto com mais vontade de continuar. E é bom poder sair e ir buscar a minha filha, conversar com ela, saber como lhe correu o dia, brincar com ela, dar-lhe banho, fazermos o jantar juntas, sentarmo-nos os três à mesa a conversar (estou aqui a ignorar todos os ralhetes à hora da refeição...) e a contar o nosso dia, contar-lhe histórias, fazer vozes estranhas e dizer disparates. E, depois disso, é bom podermos estar os dois, juntos se quisermos, separados se nos apetecer, ele com as pinturas, eu com os meus blogues, as minhas escritas, os meus colares, as minhas fotografias, as minhas malas, enfim, com aquilo que a inspiração do momento ditar.  

Sou feliz. Mesmo. E já não tenho aquele sentimento destrutivo de insatisfação permanente comigo mesma e com a minha vida. Gosto de mim. Gosto daquilo que sou, daquilo que consigo fazer. Gosto de ser capaz de perceber de economia e de mercados financeiros, de perceber minimamente de política, de adorar estatística, de estar nas sete quintas quando tenho que trabalhar séries numéricas, mas também de saber coser à máquina, de fazer colares, de fazer compotas, de me aventurar a fazer os meus próprios cremes e sabonetes, de ter uma horta na varanda ou de andar com uma mala feita por mim. Gosto de ser a mãe que sabe como correu o dia da filha, que conhece as suas amigas, que fala com a professora, que brinca, mas que também sabe ser severa e que educa. Gosto de saber que faço por merecer o amor que o meu amor me dá. Gosto de falar com a minha avó todos os dias e de ouvir as suas conversas intermináveis (há que aproveitar enquanto ela está por cá, ela que é a minha outra mãe), gosto de estar com o meu pai aos fins-de-semana naqueles almoços que ele adora, gosto de me meter com a minha mãe nas suas lides virtuais (sempre com pena de estarmos tão longe), gosto de estar com os meus melhores amigos ao fim-de-semana, de manter contacto com pessoas que estão na minha vida há anos ou que entraram nela apenas recentemente. Gosto de escrever e de fotografar e gosto de ter estes três (.) (.) (.) espaços onde posso fazer essas duas coisas. Gosto de procurar coisas novas, descobrir coisas novas, experimentar coisas novas. Gosto de ler artigos de economia durante o fim-de-semana. Não faz mal se têm a ver com trabalho. Não me importo de trabalhar em casa se puder ter a minha família por perto. Se puder interromper para contar uma história, para dar um beijo, para trocar uma palavra. Estar ali, com eles, mesmo que a trabalhar.

Como tenho tempo para tudo? Não sei, acho realmente que o tempo é o que fazemos com ele. Eu só tento preencher a minha vida com coisas que me dão prazer e tirar prazer das coisas que preenchem a minha vida.

Porque é que estou a escrever isto hoje? Porque hoje foi um bom dia. Estou em São Paulo e apresentei hoje um trabalho que fiz juntamente com as minhas colegas de todos os dias. Somos uma equipa demasiado pequena para o volume de trabalho que temos, mas todas gostamos do que fazemos e gostamos de trabalhar juntas e essa é a nossa força. Fizemos este trabalho gigantesco a seis mãos e coube-me vir apresentá-lo. Foi um voto de confiança que recebi e uma grande responsabilidade. Afinal, não vim mostrar apenas o meu trabalho, mas o trabalho de todas nós. Elas foram incansáveis e o último mês foi muito duro para todas. Estou feliz porque correu bem. Muito bem. Era um momento importante para as três e eu acho que estivemos à altura. E isso significa que somos uma boa equipa. Isso significa também que consegui ser merecedora da confiança que depositaram em mim.

Para além disso, estou feliz porque consegui provar a mim mesma, uma vez mais, que é possível conciliar tudo. Que a minha felicidade está na diversidade. E que o princípio do equilíbrio é "o" princípio. Pelo menos para mim. Pelo menos para a minha vida. 

Terça-feira, 19 de Abril de 2011

O louco

I

A perfeição.
O objectivo de cada instante
O motor de tudo mais
Na busca eterna,
insaciável,
incansável,
na busca pela perfeição
o louco inicia a sua marcha
Devagar, tacteia prudentemente o caminho
À medida que avança,
O louco sabe até onde pode ir
sabendo também que não será mais perfeito
do que já é
porque é humano.
No entanto, prossegue.
Os passos do louco são cuidados.
Ele saboreia a viagem.
Sente o sol, 
o seu derradeiro raio a tocar-lhe no rosto
não deixando de saber que se der um passo
mesmo que imperceptível
um pequeno passo em frente,
entra nas trevas.
Invariavelmente, o passo é dado
E o louco sente, impotente, que perdeu uma vez mais
Que é, de novo,
o eterno derrotado da sua inexequível luta.

II

Quando o louco passa a barreira
sente o seu senso, transformado em ar e sangue, a fugir.
Os pulmões ficam plenos de um ar viscoso
que deixa de ser ar.
As veias esvaziam-se de sangue deixando um nada
que passa a estar repleto de medo.
A inércia é atroz.
Todos os músculos se tolhem.
E o louco debate-se sem um único movimento.
Porque nada mais pode conseguir.
Numa luta que já não é sua.
Então vem o pânico.
Pânico de ver que o que está para além da porta
É o menos perfeito que já alcançara
É o mais podre.
E, então, tudo se desmorona.

III

Da boca solta-se um uivo de dor.
Da pele nada mais fica do que frio.
Do olhar morre toda a esperança.
Do ouvir, apenas o som da derrota.
Do sentir, nada.
E então o louco precisa sentir,
Ouvir mais do que despojos de guerra
Olhar para um outro horizonte.
A pele tem que estar quente.
A dor tem que estar na pele,
na carne,
na matéria.
E é então que o louco transforma a inércia em raiva.
Em ódio.
Numa punição de si mesmo.
Até doer.
Até sentir.
Até voltar a ser.

IV

E, então, o louco sossega.
Sabendo, porém, que tentará novamente.


Susana Figueiredo, 2004