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Mar

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Este mar que me acalma e me faz feliz.


Mar Sonoro
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim. A tua beleza aumenta quando estamos sós E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho. Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim.
Sofia de Mello Breyner Anderson

Overload

Tento fazer tudo.
Quero fazer tudo.
Chateio-me quando não faço tudo.
Então vou fazer.
Tenho a mania.
E depois sinto-me doente como nunca me senti na vida.
Vá-se lá saber porquê...

Há poços sem fundo?

Hoje diria que sim.

Dos tiques e das franjas

Agora que sou mãe de um rapaz, espero ansiosamente que passe em tempo útil a moda em que os putos adolescentes e pré-adolescentes usam uma franja sobre os olhos, que os faz literalmente atirar a cabeça para o lado num tique premeditado, que me dá ganas de pegar na máquina e fazer por aí umas tosquias. Que cena tão parva!

Acordai!

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


Fernando Lopes Graça José Gomes Ferreira
Ouvir (Lisboa Cantat)

Os fumadores das nove em ponto

São nove horas. À frente de uma das torres de escritórios, lá se amontoam eles. Olheiras profundas, rugas vincadas entre o nariz e o queixo, arcos perfeitos que sulcam a fronte, quase todos magros, quase todos de pele cinzenta e macilenta. Dia, após dia, após dia, a mesma rotina que toca de algum modo o ritual. É para muitos o primeiro cigarro da manhã, geralmente solitário, esporadicamente acompanhado por dois dedos de conversa. Segue-se em regra ao parco pequeno-almoço no quiosque ali perto – uma bica e um bolo – e antecede duas horas de trabalho, intenso mas desorganizado. São cinco minutos de ensimesmamento, a pensar na vida, no dia que se segue, no que não foi feito na véspera. Quem por lá passar atrasado, verá apenas um cinzeiro cheio, algumas beatas no chão e sentirá um leve cheiro a tabaco queimado. É o rasto dos fumadores das nove em ponto, que já se apinharam no elevador e desapareceram até ao próximo cigarro.

O mistério da aparente imutabilidade

Há pessoas que parecem não mudar. Ontem, enquanto esperava pelo meu na paragem, olhei para dentro de um outro autocarro e quem vejo? Um rapaz dos tempos da faculdade. Um rapaz que todos os dias apanhava o mesmo autocarro que eu e que se sentava invariavelmente no mesmo lugar. Um rapaz que, apesar de morar na mesma cidade, andar na mesma universidade, ter aulas muitas vezes na sala contígua à minha e apanhar o mesmo autocarro no mesmo horário, nunca me dirigiu a palavra. Nem em resposta ao meu olá. Ali ia ele, sem ouvir música, sem ler um livro, um jornal, uma revista, sem falar com ninguém. Sempre vestido com as mesmas cores - verde, bege, castanho - sempre com óculos do mesmo formato, sempre com a mochila ao colo, sempre com a mesma expressão de lábios cerrados com um leve sorriso sarcástico no canto da boca, quase imperceptível. Cara redonda, cabelo encaracolado e sempre bem cortado, expressão impenetrável. Tudo igual, durante cinco anos. E, quase doze anos depois, ali estava ele. …