sábado, 3 de agosto de 2013

Overload

Tento fazer tudo.
Quero fazer tudo.
Chateio-me quando não faço tudo.
Então vou fazer.
Tenho a mania.
E depois sinto-me doente como nunca me senti na vida.
Vá-se lá saber porquê...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Dos tiques e das franjas

Agora que sou mãe de um rapaz, espero ansiosamente que passe em tempo útil a moda em que os putos adolescentes e pré-adolescentes usam uma franja sobre os olhos, que os faz literalmente atirar a cabeça para o lado num tique premeditado, que me dá ganas de pegar na máquina e fazer por aí umas tosquias. Que cena tão parva!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Acordai!

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!



Fernando Lopes Graça
José Gomes Ferreira


sábado, 21 de abril de 2012

Os fumadores das nove em ponto


São nove horas. À frente de uma das torres de escritórios, lá se amontoam eles. Olheiras profundas, rugas vincadas entre o nariz e o queixo, arcos perfeitos que sulcam a fronte, quase todos magros, quase todos de pele cinzenta e macilenta. Dia, após dia, após dia, a mesma rotina que toca de algum modo o ritual. É para muitos o primeiro cigarro da manhã, geralmente solitário, esporadicamente acompanhado por dois dedos de conversa. Segue-se em regra ao parco pequeno-almoço no quiosque ali perto – uma bica e um bolo – e antecede duas horas de trabalho, intenso mas desorganizado. São cinco minutos de ensimesmamento, a pensar na vida, no dia que se segue, no que não foi feito na véspera. Quem por lá passar atrasado, verá apenas um cinzeiro cheio, algumas beatas no chão e sentirá um leve cheiro a tabaco queimado. É o rasto dos fumadores das nove em ponto, que já se apinharam no elevador e desapareceram até ao próximo cigarro.

sábado, 3 de março de 2012

O mistério da aparente imutabilidade

Há pessoas que parecem não mudar. Ontem, enquanto esperava pelo meu na paragem, olhei para dentro de um outro autocarro e quem vejo? Um rapaz dos tempos da faculdade. Um rapaz que todos os dias apanhava o mesmo autocarro que eu e que se sentava invariavelmente no mesmo lugar. Um rapaz que, apesar de morar na mesma cidade, andar na mesma universidade, ter aulas muitas vezes na sala contígua à minha e apanhar o mesmo autocarro no mesmo horário, nunca me dirigiu a palavra. Nem em resposta ao meu olá. Ali ia ele, sem ouvir música, sem ler um livro, um jornal, uma revista, sem falar com ninguém. Sempre vestido com as mesmas cores - verde, bege, castanho - sempre com óculos do mesmo formato, sempre com a mochila ao colo, sempre com a mesma expressão de lábios cerrados com um leve sorriso sarcástico no canto da boca, quase imperceptível. Cara redonda, cabelo encaracolado e sempre bem cortado, expressão impenetrável. Tudo igual, durante cinco anos. E, quase doze anos depois, ali estava ele. No mesmo autocarro de sempre. No mesmo lugar de sempre. Mais uns quilos, a mesma quantidade de cabelo, os mesmos tons de verde, bege e castanho. Óculos iguais. Mochila ao colo, lábios cerrados e pequeno sorriso sarcástico ao canto da boca. Nunca soube nem saberei o seu nome. Nunca soube nada de nada sobre a sua vida. Creio que nunca saberei. Mas a imutabilidade aparente é algo que me intriga...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Por um feliz dois mil e doze


Pode não haver grandes razões para pensar que dois mil e doze será um bom ano. Será mau, dizem-nos, será difícil, alertam. Sabemos que será, sentimo-lo diariamente. Pedem a muitos o impossível. Mas, acima de tudo, tentam destruir-nos a esperança porque se não tivermos esperança, não temos expectativas e quando não temos expectativas, a migalha que nos derem parecerá um banquete e se nos derem várias migalhas, os nossos estômagos diminuidos ficarão saciados e, como a memória é curta, tudo esqueceremos.

O que eu tenho a dizer em relação a essa ideia é o seguinte: por mais que nos digam que vai ser pior do que foi até agora, por mais que nos tirem a esperança, não podemos perdê-la. Jamais. Porque se perdermos a esperança, se perdermos a chama interior que nos motiva, que nos faz lutar na adversidade e contra ela, perdemos o que nos resta do nosso instinto. Somos seres racionais e a nossa maior força é a nossa inteligência. Como nos deixámos então ficar amorfos? Como deixámos nós de pensar por nós e passámos apenas a seguir a cabeça de outros? Temos cabeça para pensar, para questionar e sim, admirem-se, para gerar a mudança, mesmo que seja apenas uma pequena mudança. Temos que conjugar o instinto que nos leva a acreditar que tudo poderá ficar melhor com a inteligência e a racionalidade que nos permite tomar a mudança nas nossas mãos.

Dificilmente teremos uma solução para mudar as coisas no imediato. Podemos e devemos manifestar-nos, se assim o entendermos, podemos e devemos tentar participar nas iniciativas que vão surgindo para mudar alguma coisa, podemos e devermos sair de nós, da nossa pequena esfera de conforto, e juntar-nos a outros que connosco partilhem ideias ou ideais e tentar melhorar este mundo e esta sociedade podre. Não teremos resultados hoje, desenganemo-nos, mas temos que deixar de pensar apenas no hoje. Amanhã é dia. Para o ano é ano. O futuro é o futuro, para nós e para os nossos filhos e para os netos que virão um dia, e faz tão pouco sentido deixarmos o nosso futuro na mão de menos de um por cento de nós como o faz deixarmos nesses mesmos um por cento a riqueza que geramos, que produzimos com o nosso esforço, com o nosso árduo trabalho. Talvez possamos estar um pouco melhor que o vizinho do lado e, por isso, haver a tentação de pensar deixa-me estar quieto no meu canto, a fazer a minha vida, pode ser que não reparem em mim e que não me tirem o pouco que tenho. É legítimo, mas isso não pode impedir-nos de pensar - pelo menos de pensar - que se eu der a mão ao meu vizinho e se juntos nos levantarmos e tentarmos fazer algo, nem que seja pelo menos começarmos a falar um com o outro, partilharmos as nossas ideias e os nossos problemas, já estaremos a mudar algo. Seremos mais humanos e se nos aproximarmos da nossa humanidade, estaremos mais próximos de nós mesmos e, consequentemente, do controlo dos nossos destinos.  

Não está na minha natureza ser negativa. Não está na minha natureza baixar os braços. Gostava de poder fazer mais do que faço, mas sei que o pouco que faço é melhor que nada. Por isso, acredito que será um feliz dois mil e doze. Tenham esperança. Não deixem que tirem essa esperança de vós porque é quanto basta para nos dar força para fazermos com que o dia de amanhã seja um dia melhor.