sábado, 25 de dezembro de 2010

A casa

Silêncio.
Os sons da casa ainda dormem,
petrificados no ar gélido da madrugada.
O compasso de respirações adormecidas,
longe e perto,
tenta embalar-me e levar-me de novo.
Porém, mantenho-me desperta,
apreciando a serenidade do mundo quando todos dormem
quando todos se perdem em si mesmos
enquanto eu tento apenas encontrar-me.

Aos poucos, o negro do quarto torna-se cinzento
e do cinzento começa a surgir a cor.
Com a cor, despertam também os sons da manhã
e com eles os sons da casa.
O roçagar dos lençóis faz-se ouvir
uma porta range devagar
o soalho estala
cedendo sob o peso de pequenos passos hesitantes.

A casa acorda.
Passos maiores ressoam pelos corredores
tal como o som de conversas ainda sussurradas
as águas dos banhos
os barulhos matutinos da cozinha
e os seus cheiros, sempre os seus cheiros.

Deixo a minha busca e o meu silêncio
e entrego-me a um dia preguiçoso
partilhado com rostos que são os de sempre
mas nem todos os de todos os dias.

As conversas já não são sussurradas
os ruídos já não são cuidadosos.
A casa tem a porta sempre aberta
e recebe sempre alegremente
numa azáfama que se prolonga até à noite.
À volta da mesa,
ao pé da lareira,
em torno da vida.

Assim, do silêncio passou-se ao sussurrar.
Do sussurrar à conversa.
Da conversa à explosão de risos,
às histórias antigas e recentes que não me canso de ouvir.
E assim ficamos horas e horas
até que vamos sendo vencidos pelo cansaço.
Os risos dão então lugar a sorrisos exaustos
as histórias, a pequenas conversas em jeito de despedida.
E por fim, o até amanhã ou até breve
Com o som dos passos a partir
Os sussurros que voltam
E que se apagam novamente com o roçagar dos lençóis.
As vozes calam-se.
As respirações serenam.
E volta o silêncio e com ele o mundo torna a ser pequeno.
E eu volto novamente a mim.
Até adormecer.

Susana Figueiredo, Dezembro/2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Amanhãs Previsíveis

Que fazer quando sou escravo e senhor de mim,
Da contiguidade de um mundo que
De tão grande, se torna ínfimo e sempre igual.
Que fazer dos ponteiros do relógio que teimam
Numa concebida mas inerente precisão.

Que fazer quando me encontro preso no meu eco,
Quando cada dia não difere do de ontem
Quando sei porque acho e porque sinto
Que o amanhã é igualmente previsível.
Saio de mim?
Fico comigo?
Não há um terceiro caminho?
Como posso eu, céptico, pensar que o futuro está traçado
Como posso eu, então, negar que o não está,
Mas não lutar e deixar-me à deriva?

Quero que o mundo cresça e me envolva em si,
Mas quero que me deixe à minha sorte.
Quero que tomem as minhas rédeas e que logo as soltem
Para que seja eu a fazer a cavalgada.
Quero que desenterrem a minha alma do seu túmulo
E que a devolvam então à vida,
Mas que me deixem vivê-la,
E desacertar o relógio.
Susana Figueiredo, Junho/2003

sábado, 11 de dezembro de 2010

Vidas paralelas...

Uma das coisas que me faz gostar de andar de transportes públicos é poder observar as mesmas pessoas todos os dias. Gosto de observar os que vão sós, com a sua música, o seu livro ou, pura e simplemente, os seus pensamentos. E gosto de dar nomes imaginários a cada um deles.

Neste grupo, gosto em particular de uma senhora que terá cinquenta e muitos anos e que lê invariavelmente escritores gregos, uns mais, outros menos conhecidos. Ainda não lhe dei um nome. Acho engraçado o facto de haver uma rapariga que apanha o autocarro na paragem seguinte à minha, que trabalha um piso acima de mim - logo vamos sempre juntas no elevador - e costuma voltar no mesmo autocarro. Mas nunca cumprimenta, a menos que seja cumprimentada. Há também a Miss Kindle, que sempre que consegue ir sentada tira o seu livro digital da enorme mala e lê livros com animais no título - pode ser coincidência, mas já foram pelo menos três...

É, porém, inegável que os que vão acompanhados são os mais interessantes de observar, já que abrem uma janela um pouco maior para as suas vidas... como as duas meias-irmãs da Cinderela, que são as minhas companheiras de autocarro favoritas. A mais nova, que terá uns vinte e tal, tem-se feito acompanhar por um livro de "Uma Aventura". A mais velha, que julgo ter uma filha, é mais séria e tem um ar um pouco mais sofrido e cansado. Mas aparentam ser daquelas irmãs inseparáveis, melhores amigas, com uma relação inabalável e inultrapassável... como eu gostaria de ter tido uma irmã assim...   

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A velha

A velha que fuma num banco de jardim
Dedos tintos de nicotina
Melenas amarelas
A pele seca e curtida de longos e longos anos
A velha que fuma num banco de jardim
No meio da avenida
Lembrando Lisboa antiga
Antes bela, agora sulcada pelo tempo
A velha que fuma num banco de jardim
Recordando uma vida cheia
Ou vazia
Que agora é apenas espaço
Impregnado de fumo
A velha que fuma num banco de jardim
O corpo escasso de carne
Expirada com o fumo
A velha que fuma num banco de jardim
Para morrer depressa
Mas a morte não chega
Ou então, e apenas, para saborear um cigarro.

Susana Figueiredo, Jul/2005

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A sala

Fecha os olhos. Imagina-te numa sala sem portas, sem janelas. O ar está viciado, quente, a roupa cola-se ao corpo. A boca está sequiosa por uma gota de água doce. Não gostas do que sentes, mas já te habituaste.

Pensas no que farias se se abrisse uma janela no nada que te rodeia. Acreditas estar melhor assim. Ser-te-ia insustentável respirar o ar de outros ventos, sentir a chuva a entrar pelos teus poros, a envolver-te nos seus dedos languidos. Tragar a água que o céu te dá. Insustentável.

Para quê arriscar que a luz me cegue, se a escuridão me permite não perder a visão? Mas o que vês tu, no escuro? Não vejo, mas poderia ver. Para quê arriscar? Estou na melhor situação possível.

Contentas-te com a tua pele pegajosa, conténs a tua sede. O conformista. O conformado. Tudo porque julgas estar melhor assim. Porque poderias voltar a sentir o vento, a chuva, a luz, tudo isso. Mas poderias perdê-las de novo. É isso que temes. Que te voltem a fechar na sala escura e húmida. É melhor ficar.

Estou nessa sala, acreditas? Mas já não suporto o ruído do breu, não suporto o meu próprio cheiro, impregnado na roupa, no chão, nas paredes. Mal me lembro de como se fala, porque não falo comigo, porque não quero que o som da minha voz me faça pensar que lá fora há outra voz que me pode, que me quer ouvir.

Então penso: e se, pelo menos, houvesse uma nesga de luz? Escorrego lentamente pela parede encharcada. Eu. A parede. Tudo escorre água, a água amarga que me mata a sede, que me mantém viva. E que me faz pensar no sabor da água doce.

Fito a parede em frente. A fresta. A nesga. A FRESTA!

Cerro os olhos para não a ver, mas aquele traço branco-amarelo mantém-se dentro de mim, martela-me, revolta-me. Porque eu sei que ela existe, está ali, está agora dentro de mim. E por mais força que faça, o seu eco permanece nos meus olhos, que afinal não cegaram.

Enrolo-me sobre mim e penso: e agora? Passo os dedos por ela, sentindo o ar gélido, o cheiro a terra revolta e molhada. Cheiro-a e invade-me um medo atroz. Pânico, digo eu. Sinto a água da chuva envolver os meus pés. A sala deixou de ser exclusivamente minha...

Quero alargar a fresta.
Quero passar.
Não vou conseguir.
Não estou a conseguir.
Quero.
Não quero.
Volto para a minha parede.
E choro.
Choro porque quero.
Choro porque o pânico assim quer.
Choro.

De molhada passo a estar ensopada, não sei se por causa das lágrimas, se por causa da água que escorre da parede. Não é isso, porém. A chuva entrou de supetão pela nesga, que já o não é mais. Porque água é sempre água. E juntou a sua doçura ao sal das minhas lágrimas e ao acre da água que escorria da parede. E os dedos da chuva, que é um rio, transformam-se em mãos, braços e envolvem este pequeno ser. Como nem a escuridão nem a luz tiveram força para me cegar, fecho os olhos. Vou?

Leva-me.

Susana Figueiredo, Nov/99

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Insone...

Longas serão as horas deste dia que começou antes das duas da manhã. Difícil de suportar é o imenso cansaço que as três horas que dormi não eliminaram. A doer está a cabeça, casa de um cérebro que não quer desligar-se. Não fosse todo este cansaço, poderia estar a criar. Mas não estou, apenas escrevo para dizer que não estive sem escrever...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus Saramago!

Adeus, meu mestre. Adeus às tuas novas histórias, que não poderei voltar a ler. Adeus a ti, que me ensinaste a ler, escrever e pensar. Adeus...

domingo, 13 de junho de 2010

Amélie

Há filmes assim: uma história simples, que não ocuparia mais de uma página a ser escrita, mas com personagens tão complexos, com detalhes tão ricos, com imagens tão espectaculares, filmes que nos completam o tempo de uma forma tão mágica que nos trazem de facto coisas novas de cada vez que os vemos. Assim é Amélie, um dos meus filmes preferidos, um filme que vive de pormenores, de pequenos gestos, que me faz esboçar sorrisos a todo o instante, que me faz crer que, de facto, há pequenas coisas que podem mudar vidas. Aquela visão de Paris, aquela casa, aquele mundo...

Sempre que o vejo, faz-me pensar o quanto damos importância a coisas irrelevantes e como ignoramos as coisas realmente importantes... enfim...

sábado, 1 de maio de 2010

Família

Hoje estive com praticamente toda a minha família: com a minha mãe e o Zé de manhã, sempre a correr, com a minha avó até meio da tarde e na festa dos 95 (!) anos do meu avô com o lado paterno da minha família, com quem raramente estou (excepto com o meu pai, claro). A Catarina conheceu finalmente os primos, miúdos e graúdos, e eu estive a pôr conversa em dia com todos. A ver se consigo manter o contacto... É bom estar com a família...

domingo, 18 de abril de 2010

Um longo inverno

Eu gosto do inverno. Gosto de chuva e de frio, sobretudo se puder estar a descansar, a ver e a ouvir o crepitar do fogo numa lareira e a sentir o cheiro da lenha, a deixar-me embalar pelo barulho da chuva lá fora, fazer um grande lanche com scones e bolachas caseiras, daquelas que enchem a casa com o seu cheiro divinal. Mas também gosto da Primavera, cada vez menos presente, em que se sente a vida a surgir e a invadir de cor as memórias cinzentas que nos ficam dos meses anteriores. Sempre choveu na primavera, mas havia também dias de sol no inverno. Depois deste que passou, está a custar-me que o sol dos últimos dias tenha partido e com ele a primavera...

sábado, 17 de abril de 2010

Para começar

Este é um dos meus poemas favoritos. Sei-o de memória apesar de não ser dotada para memorizar. Sei-o de tanto o contemplar, primeiro nas paredes do meu quarto, depois em pequenos quadros no escritório lá de casa. É do Pablo Neruda e parece-me um bom ponto de partida.

O Teu Riso

Tira-me o pão se quiseres
Tira-me o ar
Mas não me tires o teu riso
Não me tires a rosa, a lança que desfolhas
A água que de súbito brota da tua alegria
A repentina onda de prata que em ti nasce

A minha luta é dura e regresso de olhos cansados
às vezes por ver que a terra não muda
Mas ao entrar, teu riso sobe ao céu a procurar-me
E abre-me todas as portas da vida

Meu amor, nos momentos mais escuros
solta o teu riso
e se de súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua,
ri
porque o teu riso será para as minhas mãos como uma espada fresca.

À beira do mar, no Outono,
Teu riso deve erguer sua cascata de espuma
E na Primavera, amor,
Quero o teu riso como a flor que esperava
A flor azul
A rosa da minha pátria sonora.

Ri-te da noite, do dia, da lua
Ri-te das ruas tortas da ilha
Ri-te deste grosseiro rapaz que te ama.
Mas quando abro os olhos e os fecho,
Quando meus passos vão
Quando voltam meus passos
Leva-me o pão, o ar, a luz, a primavera,
Mas nunca o teu riso,
Porque então morreria.

Pablo Neruda

Mais vale tarde...

Finalmente criei um blogue. É estranho que alguém para quem a escrita é algo tão essencial tenha resistido tanto tempo a criar um. Porquê? Ocorrem-me várias razões: dificuldade em mostrar o que escrevo, preferir escrever em papel, preguiça (sim, é verdade, também me assalta de vez em quando...), falta de vontade, etc, etc. Mas hoje estou em Évora, sentada ao pé da lareira, sem as distracções que costumo ter em casa e achei que, apesar de parecer um momento tão bom como outro qualquer, tem mais aquele quê que tem faltado...

Não sei ainda o que vai ser, se vou conseguir mantê-lo, que tipo de informação vou publicar... logo se vê... o que importa é ter começado.