segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Solidão

Caminho devagar, diluindo-me na multidão de cores e cheiros da rua
Nem mais, nem menos que outros, eu mesma
Igual a eles.
Olhos fitos num ponto do horizonte, que desejo alcançar a cada momento
Porque só ele importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
Um ruído, meio sussurro, meio estrondo, não sei, fez-me desviar o olhar
Para uma porta.
Ali, no meio, ignorada por todos os outros olhos que apenas fitam o seu ponto
Porque só ele importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
A porta é invisível , penso.
A porta é invisível?, pergunto.
Silêncio.
Os ouvidos também fitam o ponto.
Porque só ele importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
Vou entrar, grito, num grito mudo para os ouvidos que fitam o ponto.
E entro.
E saio do outro lado, vendo a mesma rua, a mesma multidão, as mesmas cores.
Cheirando o mesmo cheiro.
E procuro o meu ponto.
Não o encontro.
Porque ele já não me importa. Ali. Àquela hora. Nunca mais.
Estou livre para olhar em volta
E olho. Com atenção.
A multidão desfaz-se. Fica uma só pessoa. Uma cor. Um cheiro.
É quem importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
Outra pessoa, e outra, e outra.
A cada qual um cheiro e uma cor.
Apenas um cheiro e uma cor. Nada mais.
E não fica ninguém.
Só as pedras azuis e brancas da calçada. E eu.
Olho-as, pela primeira vez, na rua deserta.
E um prédio antigo. E uma janela.
Como quero estar naquela janela.
Porque só ela importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
E da janela vejo a rua.
Sem multidão.
Apenas a rua.
E vejo-me, lá em baixo, nua, fria, sem cor, sem cheiro, sem nada.
A correr para a porta, desesperada.
E ela fechada, trancada por fora.
Dor. Nada.
Porta. Nada.
Eu. Nada.
Rua. Agora deserta. Sem porta. Só a calçada.
E eu, eu?, na janela.
Janela. Nada.
Porque só ela importa. Ali. Àquela hora. Nada mais.
A solidão.

Susana Figueiredo, Janeiro/1999

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Alienação

A minha avó tem oitenta e dois anos. Faz oitenta e três em menos de um mês. Como é normal nestas idades, padece de maleitas várias, umas mais impeditivas do que outras; a principal, extremamente dolorosa. Custa-lhe andar. Custa-lhe mexer os braços. Custa-lhe muita coisa. Ainda assim, a minha avó mexe-se. Faz a vida dela, todos os dias. Paga as suas contas. Gere a sua casa. Recusa muitas (demasiadas) vezes ajuda. Não é especialmente instruída mas faz questão de se manter informada: sabe o que se passa no mundo, no seu país, na sua rua, na sua família. No seu coração.

A minha avó nasceu em mil novecentos e vinte e oito. Como tal, sabe o que é a guerra. Sabe o que é a ditadura. Sabe o que é não poder ter voz. Sabe o que é ter poucos ou nenhuns direitos. Sabe o que é voltar a tê-los. Sabe que lutar é difícil, duro, demorado, mas que dá frutos. Sabe que se é difícil ganhar direitos, pode ser muito fácil e rápido perdê-los. Sabe, por isso, o que é a cidadania, o dever cívico. 

A minha avó sabe também o que é viver com uma pensão. O que é gastar uma grande fatia da mesma em medicamentos. O que é o aumento dos impostos, a redução das comparticipações, as taxas moderadoras. Sabe o que é a crise porque a sente mais do que muitos de nós. E porque já passou por várias e por coisas que nem conseguimos imaginar. Em oitenta e dois anos, sabe certamente o que são políticos tiranos, políticos prepotentes, políticos levianos, políticos irresponsáveis. E alguns políticos, poucos, que fizeram a diferença.  

Acima de tudo, a minha avó, que sabe como é não ter liberdade, que sabe como é devastador o silêncio de um povo, que sabe o que custa não poder expressar o seu descontentamento, vota sempre. Porque não votar até pode ser uma forma de protesto mas é, acima de tudo, uma forma de alienação. Ontem, mesmo com oitenta e dois anos, mesmo sabendo que o seu voto dificilmente faria a diferença perante um desfecho que já era esperado, mesmo com seis graus de temperatura, mesmo com um vento inclemente, fez questão de ir votar. Como sempre faz. Eu levei-a, mas se não tivesse levado sei que ela iria à mesma, pois se falhasse em cumprir esse que é tanto um dever como um direito tão arduamente conquistado, não dormiria com a sua consciência tranquila.

A minha avó tem, aos oitenta e dois anos, lucidez para perceber que os direitos e a liberdade arduamente conquistados pelos povos em todo o mundo ao longo da história são um dos bens mais preciosos que podemos ter. Tem lucidez para perceber que se os alienarmos e que se nos alienarmos podemos perdê-los. Novamente. E rapidamente. E essa percepção de algo tão básico sobrepõe-se à dor, à doença, à preguiça ou à resignação. 

Perante isto, perante alguém que teria tantas razões para ter ficado ontem em casa, gostava mesmo muito de saber qual é a desculpa de mais de cinco milhões de pessoas para terem optado por não ir votar. Por se alienar. Por ficar em silêncio. E por arriscar perder esse direito.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Vácuo

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Susana Figueiredo, Janeiro/2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Naquele café...

O café, que costuma acolher os novelos infindáveis das conversas de velhas senhoras, os silêncios de casais de muitos ou poucos anos, as bocas lambuzadas das crianças a quem as avós não sabem dizer não, tinha hoje outro público. Velhos, novos, assim assim, todos de cabeça erguida para a televisão pendurada na parede, com o fundo verde que é uma presença constante onde quer que se veja uma densidade tão grande de homens por metro quadrado. Mas o que me prendeu a atenção foi o casal adolescente que conversava e ria numa mesa, com o alheamento próprio que o amor e a novidade trazem consigo. Homens, sozinhos, a ver o amor de uma vida a rolar na televisão. Rapaz e rapariga, juntos, a viver o amor do momento. Mesmo que acabe amanhã. 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cidade Devoluta

Cidade.
Casas.
Gente.
Conversas de vizinhas.
Vidas.

Cidade.
Casas com dono ausente.
Mas ainda com gente.
Lamentos de vizinhas.
Vidas.

Cidade.
Casas que se desfiguram.
Gente envelhecida.
Lágrimas de vizinhas.
Vidas.

Cidade.
Casas que se emparedam.
Porque já não há gente.
Nem vizinhas.
Nem vidas.

Susana Figueiredo, Janeiro/2011

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Lisboa e Tu

Hoje partilhámos Lisboa.
Hoje Lisboa partilhou-te comigo.
Foi estranho ter-vos juntos.
O meu amor eterno.
A minha paixão mais recente.
Ambos ali.

Complementam-se, digo-te.
As suas formas, a tua esqualidez,
a sua luz, as tuas trevas.
O seu esplendor colorido,
O teu sóbrio recato.

Lisboa.
Dela brotam palavras,
letras que me fervilham nas mãos.
Sons, cheiros que me alvoroçam.
A simplicidade que me tira o fôlego,
que me trava o sangue.
A exaltação.

Tu.
O teu profundo silêncio.
As tuas muralhas, os teus caminhos sinuosos.
Tu,
que me exiges olhos,
boca,
pele,
os seis sentidos, enfim.
Tu,
A complexidade que me dá a certeza
de querer transpor as tuas paredes,
percorrer os teus trajectos
com a calma que uma luta requer.

Lisboa e Tu.
Numa tarde de Verão.

Pudesse existir a perfeição de um momento
e longe dela não andaria.
Porque esta ficará certamente gravada,
mesmo que as palavras se percam,
no meu livro de memórias.



Susana Figueiredo, Julho/1999

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Inusitadamente...

Há prazeres inesperados... o melhor momento do meu dia foi sem dúvida os quarenta e cinco minutos que decorreram desde que entrei na auto-estrada seis até chegar a Valverde. Com a Catarina a dormir no banco de trás, o compasso da sua respiração pesada e o som das rodas no asfalto, pude ficar comigo e com os meus pensamentos, a apreciar a estrada e o breu da noite. Já mais perto do meu destino, tive que percorrer duas pequenas estradas ladeadas por sobreiros. A luz dos faróis naquelas folhas dá-lhes um ar quase etéreo, aprofundado pela ausência de tudo o mais à sua volta. De som. De cor. De gente. Um pequeno arrepio percorre-me sempre a espinha quando atravesso esta estrada, numa reminiscência de alguns filmes mais atemorizadores, mas reconforto-me por estar num espaço pequeno e quente, protegida de qualquer improvável acontecimento no exterior... falta-me sempre a coragem para parar o carro, sair e apreciar o momento. Mas sei que vou adorar o dia em que conseguir fazê-lo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A janela

Da paragem de autocarro à minha casa são cerca de dez minutos a pé pela zona mais antiga de Queijas, que é habitada pela população idosa da vila. Há uma velha senhora que deve ter já muito pouca mobilidade e que vive num dos vários rés-do-chão por que passo no caminho. Essa senhora, de rosto afável apesar da possível doença de que sofre, gasta - pelo menos - os seus fins de tarde sentada ao pé da janela, a observar os que passam. São momentos tão mais breves quanto mais rápidas as passadas do transeunte. Mas, para ela, é a diferença entre a tristeza e a alegria, pois a velha senhora sorri sempre se olharmos para ela. E eu olho, porque uma das boas coisas da vida neste mundo-cão é receber um sorriso bondoso de um desconhecido. E retribuo o sorriso.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Solo

Passo as minhas mãos pela lisa superfície que é a tua alma
Dela, sinto apenas o áspero roçagar da fina camada de areia que a cobre
Da areia que esconde qualquer porosidade, qualquer imperfeição
Como nada sinto, penso partir
Mas um súbito e inusitado cansaço faz jazer o meu corpo sobre ela
E escutar
Apenas oiço um vago murmúrio, tão distante como as profundezas da terra
Presto atenção
Parece uma voz que me traz palavras sumidas
E tambores
E silêncio
E novamente a voz, agora mais clara
E silêncio.

Ainda deitada, tento afastar a areia
e percebo que o solo, apesar de endurecido pela seca
se desfaz com a força dos meus dedos
Lentamente...
De gatas, raspo-o vigorosamente e tento escutar
Apenas silêncio.
Mas sei que não adormeci e que a voz é real
Os tambores ainda ecoam em mim e abafam o insuportável som desse silêncio
Continuo a escavar, freneticamente, agora com as mãos
Sinto as pedras a cortarem-me os dedos e a terra a entranhar-se nas feridas
Não me importo porque apenas quero voltar a ouvir
E por isso falo
Por isso chamo-te pois essa voz e os tambores e o cru silêncio só podem ser teus
E escuto.
E silêncio.
E acredito que se for mais fundo conseguirei ouvir-te
Ou, pelo menos, que me oiças.

Assim escavo, o sangue a escorrer dos meus braços
Que ardem embora eu não sinta
Porque só me interessa ouvir
Ouvir-te
E escuto novamente
No silêncio, surge um murmúrio
Eu estou mais perto, mas ele, mais longínquo.

E, num último fôlego, encontro-o
Não tu, mas o teu esconderijo
Do qual já fugiste
E onde ficou apenas o teu cheiro
E o teu silêncio.
Os quais tento abraçar
E beber
E sentir
Mas não consigo pois são tão etéreos quanto tu te tornaste
E por isso desisto
Suja e ferida, refaço o meu caminho
Deixando no chão as marcas da minha presença.


Susana Figueiredo, Abril/2008

sábado, 1 de janeiro de 2011

Recomeçar...

Embora o meu ano novo comece a 7 de Outubro, quando completo mais um ano de vida e começo outro novinho em folha, não deixo de gostar da mudança de ano no calendário. Há sempre esperança no ar, mesmo nos momentos difíceis, e a sensação de uma agenda cheia de folhas imaculadas por escrever e ainda a cheirar a tinta. E o primeiro dia do ano é sempre um bom dia, calmo, sem pressas... ainda por cima, costumo começá-lo com os melhores dos amigos, a partilhar comida, risos, histórias e tempo. É bom, mesmo muito bom...