quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Acordai!

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!



Fernando Lopes Graça
José Gomes Ferreira


sábado, 21 de abril de 2012

Os fumadores das nove em ponto


São nove horas. À frente de uma das torres de escritórios, lá se amontoam eles. Olheiras profundas, rugas vincadas entre o nariz e o queixo, arcos perfeitos que sulcam a fronte, quase todos magros, quase todos de pele cinzenta e macilenta. Dia, após dia, após dia, a mesma rotina que toca de algum modo o ritual. É para muitos o primeiro cigarro da manhã, geralmente solitário, esporadicamente acompanhado por dois dedos de conversa. Segue-se em regra ao parco pequeno-almoço no quiosque ali perto – uma bica e um bolo – e antecede duas horas de trabalho, intenso mas desorganizado. São cinco minutos de ensimesmamento, a pensar na vida, no dia que se segue, no que não foi feito na véspera. Quem por lá passar atrasado, verá apenas um cinzeiro cheio, algumas beatas no chão e sentirá um leve cheiro a tabaco queimado. É o rasto dos fumadores das nove em ponto, que já se apinharam no elevador e desapareceram até ao próximo cigarro.

sábado, 3 de março de 2012

O mistério da aparente imutabilidade

Há pessoas que parecem não mudar. Ontem, enquanto esperava pelo meu na paragem, olhei para dentro de um outro autocarro e quem vejo? Um rapaz dos tempos da faculdade. Um rapaz que todos os dias apanhava o mesmo autocarro que eu e que se sentava invariavelmente no mesmo lugar. Um rapaz que, apesar de morar na mesma cidade, andar na mesma universidade, ter aulas muitas vezes na sala contígua à minha e apanhar o mesmo autocarro no mesmo horário, nunca me dirigiu a palavra. Nem em resposta ao meu olá. Ali ia ele, sem ouvir música, sem ler um livro, um jornal, uma revista, sem falar com ninguém. Sempre vestido com as mesmas cores - verde, bege, castanho - sempre com óculos do mesmo formato, sempre com a mochila ao colo, sempre com a mesma expressão de lábios cerrados com um leve sorriso sarcástico no canto da boca, quase imperceptível. Cara redonda, cabelo encaracolado e sempre bem cortado, expressão impenetrável. Tudo igual, durante cinco anos. E, quase doze anos depois, ali estava ele. No mesmo autocarro de sempre. No mesmo lugar de sempre. Mais uns quilos, a mesma quantidade de cabelo, os mesmos tons de verde, bege e castanho. Óculos iguais. Mochila ao colo, lábios cerrados e pequeno sorriso sarcástico ao canto da boca. Nunca soube nem saberei o seu nome. Nunca soube nada de nada sobre a sua vida. Creio que nunca saberei. Mas a imutabilidade aparente é algo que me intriga...