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A mostrar mensagens de Dezembro, 2010

A casa

Silêncio. Os sons da casa ainda dormem, petrificados no ar gélido da madrugada. O compasso de respirações adormecidas, longe e perto, tenta embalar-me e levar-me de novo. Porém, mantenho-me desperta, apreciando a serenidade do mundo quando todos dormem quando todos se perdem em si mesmos enquanto eu tento apenas encontrar-me.
Aos poucos, o negro do quarto torna-se cinzento e do cinzento começa a surgir a cor. Com a cor, despertam também os sons da manhã e com eles os sons da casa. O roçagar dos lençóis faz-se ouvir uma porta range devagar o soalho estala cedendo sob o peso de pequenos passos hesitantes.
A casa acorda. Passos maiores ressoam pelos corredores tal como o som de conversas ainda sussurradas as águas dos banhos os barulhos matutinos da cozinha e os seus cheiros, sempre os seus cheiros.
Deixo a minha busca e o meu silêncio e entrego-me a um dia preguiçoso partilhado com rostos que são os de sempre mas nem todos os de todos os dias.
As conversas já não são sussurradas os ruídos já não são…

Amanhãs Previsíveis

Que fazer quando sou escravo e senhor de mim,
Da contiguidade de um mundo que De tão grande, se torna ínfimo e sempre igual. Que fazer dos ponteiros do relógio que teimam Numa concebida mas inerente precisão.
Que fazer quando me encontro preso no meu eco, Quando cada dia não difere do de ontem Quando sei porque acho e porque sinto Que o amanhã é igualmente previsível. Saio de mim? Fico comigo? Não há um terceiro caminho? Como posso eu, céptico, pensar que o futuro está traçado Como posso eu, então, negar que o não está, Mas não lutar e deixar-me à deriva?
Quero que o mundo cresça e me envolva em si, Mas quero que me deixe à minha sorte. Quero que tomem as minhas rédeas e que logo as soltem Para que seja eu a fazer a cavalgada. Quero que desenterrem a minha alma do seu túmulo E que a devolvam então à vida, Mas que me deixem vivê-la, E desacertar o relógio. Susana Figueiredo, Junho/2003

Vidas paralelas...

Uma das coisas que me faz gostar de andar de transportes públicos é poder observar as mesmas pessoas todos os dias. Gosto de observar os que vão sós, com a sua música, o seu livro ou, pura e simplemente, os seus pensamentos. E gosto de dar nomes imaginários a cada um deles.
Neste grupo, gosto em particular de uma senhora que terá cinquenta e muitos anos e que lê invariavelmente escritores gregos, uns mais, outros menos conhecidos. Ainda não lhe dei um nome. Acho engraçado o facto de haver uma rapariga que apanha o autocarro na paragem seguinte à minha, que trabalha um piso acima de mim - logo vamos sempre juntas no elevador - e costuma voltar no mesmo autocarro. Mas nunca cumprimenta, a menos que seja cumprimentada. Há também a Miss Kindle, que sempre que consegue ir sentada tira o seu livro digital da enorme mala e lê livros com animais no título - pode ser coincidência, mas já foram pelo menos três...
É, porém, inegável que os que vão acompanhados são os mais interessantes de observar…