sábado, 19 de março de 2011

Os tempos em que vivemos

Trabalho há onze anos. Nos primeiros três - quase quatro - fiz estágios, passei recibos verdes, dei explicações para poder equilibrar um salário baixo e pagar as contas, estive um mês e meio sem emprego, enviei uns noventa curriculos nessa altura, tive que aceitar outro estágio, apesar de ter mais de dois anos de experiência... no fundo, fui precária. É claro que tudo teria sido mais fácil se me tivesse mantido em casa dos meus pais, mas não me fazia sentido aos vinte e três anos não ser independente. Fiz o que estava ao meu alcance para lutar por essa independência, passei mesmo por algumas dificuldades, mas consegui. Quando me casei, as coisas tornaram-se um pouco mais fáceis, mas havia sempre um sentimento de insegurança que advinha do facto de estar sempre na corda bamba, e esse sentimento só passou quando entrei para os quadros de uma empresa. Porquê?

As razões de cariz financeiro são as mais óbvias. Ter estabilidade financeira torna possível coisas tão simples como não ter dúvidas se vamos conseguir pagar a renda ou a electricidade ou tão complexas como decidir ter filhos. É que as necessidades básicas de uma criança - saúde, alimentação, educação - não se extinguem no tempo de duração de um contrato a termo certo. Se tomar a decisão de ser independente numa situação mais precária é relativamente simples, quando temos alguém a depender de nós para sobreviver, aí já não pode ser uma escolha tão linear.  

Há também razões ligadas à evolução pessoal e intelectual. Quando estudamos, ganhamos competências para fazer melhor, para inovar, para encontrar novas soluções para problemas. Estudar ensina-nos a pensar, a ver outras perspectivas, a analisar. É por isso que devemos estudar. Devemos ler. Devemos querer saber mais. É por isso que devemos estudar sempre. Quando trabalhamos, por outro lado, aplicamos essas competências que ganhámos nos livros e nas salas de aula. No fundo, aprendemos a fazer. E aprenderemos tanto mais e faremos tanto melhor quanto maior for a responsabilidade que nos é dada (atenção, responsabilidade é uma coisa, um cargo é outra bem diferente e é à primeira que me refiro). É uma questão de evolução, de aumento de complexidade, no fundo de aplicação do nosso investimento em conhecimento. Ter um emprego onde possamos crescer dá-nos isso. Não tem que ser um emprego para toda a vida, não é isso que defendo. Defendo é que ter um emprego com validade de um ano, ou dois ou três não nos permite crescer e não permite às empresas e ao país crescer também. Todos perdemos, no fundo.

Na geração dos meus pais, há muitas pessoas que não tiveram qualquer possibilidade de se qualificar. A minha geração é diferente: teve acesso à escola pública, às universidades públicas, a politécnicos. Em muitos casos, com o apoio financeiro e o incentivo dos pais. Os que nasceram nos anos oitenta, que são os que estão agora a entrar (ou não) no mercado de trabalho,  tiveram ainda mais acesso e mais incentivo do que os que nasceram nos setenta, como eu. No fundo, nestes trinta anos, houve de facto um esforço de universalização do ensino, o que nos torna sem dúvida na geração mais qualificada de sempre no nosso país. Como tal, na geração que tem mais condições para desempenhar trabalho técnico, inovador. Diria mesmo, na geração com maiores ferramentas para ser empreendedora. É por isso natural que tenha dificuldade em perceber porque é que em trinta anos este país - e por país quero dizer todos nós, as nossas empresas, os nossos políticos, os nossos decisores - não foi capaz de criar as condições para usufruir devidamente do seu capital humano e avançar no seu desenvolvimento.

Parece-me haver várias razões para isso. Começo pelas universidades e o Estado, cada um com a sua parte de culpa na oferta de cursos que não está adequada ao mercado de trabalho que temos - poucas vagas em cursos que permitiriam formar profissionais em áreas onde temos maior escassez, a contrastar com outros que formam centenas de alunos todos os anos sem que haja um mercado de trabalho com capacidade de os absorver até  cursos com poucos alunos e médias de nove vírgula seis valores -, por currículos mal construídos, por facilitismo na formação e por uma inadequada orientação para a vida profissional. Há também os empresários portugueses que, de uma maneira geral (é claro que há muitas excepções), não investem, não inovam, não planeiam. Pensam a curto prazo, presos a um modelo de gestão de antigamente. Pensam apenas no custo de ter ideias e de ter massa crítica para as pôr em prática, não no seu benefício. Não se promovem, não fazem com qualidade, não estimulam. Ignoram a importância da investigação e do desenvolvimento para o seu negócio, a maior parte das vezes porque é um investimento sem resultados imediatos. Vivem segundo uma filosofia em que não tem que haver responsabilidade social, em que não tem que haver ética. Não são todos. Mas ainda são demasiados.

E há as próprias pessoas. Como eu já disse, devemos saber sempre mais, estudar sempre mais. Mas também temos que perceber o que estudamos, em que é que vamos investir o nosso tempo. Há cursos e cursos e quando se escolhe um curso é preciso haver capacidade de perceber o que vamos fazer com ele. Não quero dizer com isto que haja áreas do saber menos nobres, quero dizer que é importante perceber se quando acabarmos o curso vamos ter capacidade de aplicar esse saber ou se vai ser apenas um diploma que vai ficar na prateleira. Ou, melhor ainda, se vamos ter a capacidade de pegar no nosso conhecimento e sermos nós próprios inovadores. É que o salto qualitativo que um país pode dar depende de inúmeras variáveis, entre elas a capacidade de arriscar e de mudar.

Isto tudo para dizer que estamos perante um problema que é transversal e que tem de ser resolvido por toda a sociedade. Os políticos que temos tido nos últimos anos, da esquerda à direita, têm substituido o debate construtivo de ideias pela mera retórica e o dever de servir o país pelos seus objectivos pessoais e de ascenção na máquina partidária. Os empresários da velha guarda, quer o sejam por idade ou por filosofia, continuam presos ao paradigma do salário baixo e do trabalho pouco qualificado. Ao aproveitamento de situações de precaridade. A minha geração, eu incluída, ainda arrisca pouco, inova pouco, não luta o suficiente, não coopera, é demasiado individualista. No fundo, a única saída deste labirinto em que nos encontramos terá que passar pela mudança da mentalidade de todo um país. Para isso, é necessário que todos, mas todos mesmo, entendamos que é necessário debater, é necessário sair de casa, arregaçar as mangas, deixar de esperar que outros façam por nós, assumir uma posição mais interventiva na sociedade, nas empresas, abraçar causas, lutar por elas, cumprir o nosso dever para com os nossos pais e para com os nossos filhos, o dever de tentar fazer mais e melhor, não só no trabalho, mas pelo nosso país e pelo nosso povo.  Não ter medo de mudar as coisas.

No dia doze de Março algo assim aconteceu. Não se fez para já uma mudança, essa levará o seu tempo. Mas plantou-se a semente. Por tudo aquilo que escrevi e que defendo, não podia deixar de estar lá. E de registar o momento.